One night, Paulo Scott and I were discussing the strikingly sophisticated production values of books in Brazil. We were at the Alfa Bar in Botafogo and by now had polished off several beers. He looked at me very seriously and said: “We’re Brazilians, the covers have to look good, otherwise no-one will read them.” Although he was being flippant, it often seems that literature is a somewhat marginal activity in Brazil. Hardly anyone is interested in it, it comes with no prestige whatsoever, the press pays it very little attention and it has no social function. Strange as it might seem, I believe this to be a blessing. Something very liberating. It’s like the useless art that Oscar Wilde praised at the end of the 19th century. In contrast to other countries such as Argentina, Brazilian writers are not obliged to be geniuses. Or perhaps they are, but they know that ultimately it’s a pointless exercise. But because of this when they sit down to write they are not burdened by prestige and so can write in whatever way and about whatever subject they see fit, confident in the knowledge that their reader is unknown to them, or simply doesn’t exist. When this is done properly, it produces books that are free of preconceptions; unsettling, risky books. The only thing the Brazilian writer must strive to avoid is the regionalism and exoticism for export that is the bane of any culture from the tropics. Of all the writers who have come to prominence in recent years, Scott may be one of the most notable exponents of the leap into the abyss that is contemporary Brazilian literature. He is one of the most free and yet he never loses sight of the fine-tuned craft of writing, one of the most original while still being steeped in tradition. Scott is an alchemist of words – a gift he must have learned while writing his poetry – who can turn everyday banality into lyrical epiphany. His characters are very human and often suffer from some debilitating condition – gastritis, psoriasis – of the kind that doesn’t often appear in literature. The novel Nowhere People (Habitante irreal), his literary peak thus far, is one of the best written books of the last decade, not just from Brazil but all of Latin America. Funny Valentine – a perfect story about solitude reminiscent of the best of Lucia Berlin even though it was written before her recent resurgence – is a good example of how powerful he can be.
O táxi rodou por toda cidade. O motorista já me olhava com cara abusada, insinuando-se com piadinhas sem graça. Esperei o cigarro terminar. Pedi que encostasse na esquina do bar Ocidente. Ali ficamos por mais cinco minutos. Ele se virou, tentou puxar conversa, pedi que se calasse, passei batom na boca, paguei a corrida. Ele gaguejou um boa noite. Bati a porta com força. Era uma quarta-feira fria. Dia dos namorados. Fiquei parada em frente à bilheteria, perguntei quem estava tocando. O porteiro me respondeu: Frank Jorge e Júlio Reny. Entrei. Fiquei encostada no balcão, sozinha, bebendo um gim-tônica (meio descarada pra uma velha de cinqüenta e seis anos, pensei). Os músicos começaram a tocar, pedi outro drinque. Na nona ou décima música, um garoto alto, magricelo, cabelo raspado, chamou minha atenção. Vestia uma japona preta, fechada até o pescoço, andava de um lado pro outro, olhando pro chão, encarando as pessoas. Por vezes, parava, acendia um cigarro, dava umas tragadas (tentava se concentrar no show), mas voltava a andar de um lado pro outro. Aquilo me deixou nervosa, a ponto de esquecer o resto. De repente, ele saiu. Agitei-me, terminei a bebida num gole, desci as escadas. Segui-o pela Osvaldo Aranha. Caía um chuvisqueiro gélido. Devia ser uma da manhã. Três garotos magrinhos andaram uns metros ao meu lado, ofereceram-me maconha, crack, sei lá. Recusei (disse que gritaria se insistissem). Desistiram, mas não escapei do xingamento chamaram-me de tia bundona! Apressei o passo. Ele dobrou na Fernandes Vieira. Dobrei também. No meio da quadra entre a Vasco e a Independência, ele parou, tirou um papelote do bolso (a carteira dele caiu), abriu-o, passou várias vezes a ponta do indicador sobre o que quer estivesse ali guardado e depois enfiou no nariz, mexendo o dedo freneticamente de um lado pro outro. Aquilo me repugnou. Ele repetiu o gesto outras duas vezes e seguiu em frente, sacudindo os braços, alongando o pescoço. Aproximei-me da carteira, peguei-a. Voltei pra casa. Olhei a identidade. Marcelo era seu nome. Havia também a foto de uma menina com cara de modelo, uma nota de dois reais, uma palheta de guitarra e um cartão de visita com o nome de uma mulher, endereço e telefone de Erechim. Sua identidade ficou sobre o criado-mudo por quase uma semana. Na terça-feira seguinte, quando passei em casa pra almoçar e pegar uns documentos, num impulso, peguei o cartão de visita e liguei pra Erechim. Uma senhora atendeu, menti ser amiga do Marcelo. Muito prazer! Eu sou a mãe dele…, e em seguida me perguntou: diz minha filha, tu é namorada dele? Sou, odiei-me por isso. Ficamos conversando, ela disse que não recebia notícias há muito tempo, perguntou se ele estava bem, se estava freqüentando as aulas da faculdade, se já havia me contado que abandonara a cidade, há dois anos atrás, no dia do enterro do pai, e nunca mais voltara. Respondi que não. Ela me contou muitas coisas o tom da sua voz foi mudando, ficando triste. Olhei as horas (quase duas), lamentei ter de desligar. Despedimo-nos. Ela disse: podes ligar quando quiser, sou sozinha e estou com muita saudade do Marcelo. Garanti que iria. Acabei ligando quase todos dias, por três semanas ficamos amigas. Eu inventava coisas sobre seu filho; prometi fazê-lo ligar. Num domingo (nunca a procurara num domingo), liguei no meio da tarde. Ela custou a atender. Pedi desculpas por incomodá-la. Ela foi cordial. Conversamos por horas (acostumei-me às mentiras). Antes de desligar, perguntou-me quando Marcelo iria telefonar. Desconversei. Ela me interrompeu, disse estar aborrecida por se sentir só. Ficamos em silêncio por alguns instantes. Desejei-lhe um bom final de domingo e desliguei. Mais tarde, aí pelas oito da noite, tocaram no porteiro-eletrônico, disseram ser da polícia. Desci. Eram dois. Pedi que entrassem. O mais velho foi direto ao assunto: olha dona… sei que a Senhora deve estar se divertindo, mas essa sua brincadeira está indo longe demais. Que brincadeira?, perguntei medrosa. A Senhora sabe, essas suas ligações pra mãe do rapaz… são um desrespeito! Ela é uma viúva sozinha. Acho bom parar com isso, senão a gente vai ter de prendê-la. Entendeu? Prendê-la! Como assim?, desafiando-o. Ele não gostou, pegou-me pelo queixo: olha aqui, não te faz de santa… não abusa da gente, sua maluca de merda. A polícia tem aparelhos, sabia? É fácil rastrear qualquer ligação, tirou um recorte de jornal do bolso do casaco e estendeu o braço para eu pegar. Irritado, mandou eu abrir a porta e saiu. O outro, ao passar por mim, disse: é sério, acho bom parar com isso. Entrei no apartamento tremendo. Botei uma água pra esquentar precisava com urgência de um chá. Sentei no sofá da sala, olhei o tal recorte. Era uma reportagem policial, do dia seguinte ao daquela madrugada. Dizia alguma coisa como: jovem, ainda não identificado, encontrado morto na Avenida Independência, próximo da esquina com a Felipe Camarão, vestindo cueca e camiseta, vítima de ataque cardíaco. No canto direito da matéria, estamparam a foto do rosto morto. As pessoas em Erechim devem tê-lo reconhecido. Ela sabia!, pensei estupefata, deixando o papel de jornal escorregar dos meus dedos. Apaguei a luz do abajur. A chaleira apitava miúdo. As lágrimas vieram. Fiquei ali no escuro. Senti-me só, muito só.
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